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Dólar em queda: como um rumor sobre o iene ajudou a derrubar a moeda americana

Notas de dólar e iene 23/09/2022. REUTERS/Florence Lo/File Photo

O dólar, que volta a cair nesta quarta-feira (28), está fraco no mundo inteiro por uma tendência estrutural, mas com dois gatilhos de curto prazo. Um deles foi uma fala de Donald Trump. O outro, um rumor: a possibilidade de uma intervenção coordenada entre Japão e Estados Unidos no mercado de câmbio para conter a desvalorização do iene.


O episódio ajuda a entender por que o dólar perdeu força de forma ampla nos últimos dias, mesmo sem confirmação de uma ação direta das autoridades, e por que o tema voltou a levantar comparações com episódios históricos de coordenação cambial entre potências.


O que aconteceu e por que o mercado reagiu

A movimentação começou na sexta-feira (23), após relatos de que o Federal Reserve de Nova York teria consultado bancos e dealers sobre a taxa de câmbio entre dólar e iene. Esse procedimento, conhecido como rate check, costuma ser interpretado no mercado como um possível passo preliminar antes de uma intervenção oficial.


A partir daí, investidores passaram a desmontar posições vendidas no iene, muito usado para alimentar posições em outras moedas, como o dólar. Em duas sessões, a moeda japonesa se valorizou cerca de 3% e chegou a operar abaixo de 153 por dólar, depois de ter se aproximado de 159 no fim da semana anterior.


Não houve confirmação de intervenção direta. Dados do Banco do Japão indicaram que autoridades não atuaram de forma relevante no mercado. Ainda assim, o impacto foi imediato, impulsionado pela percepção de coordenação com os EUA.


O peso da coordenação com os EUA

O efeito do rumor foi amplificado pelo envolvimento americano. Em intervenções recentes, como em 2022 e 2024, o Japão atuou sozinho para sustentar o iene, com resultados limitados no tempo.


Uma ação coordenada com Washington teria um peso muito maior. Por isso, mesmo sem operações concretas, a simples sinalização foi suficiente para alterar expectativas e gerar movimentos rápidos no câmbio.


À Reuters, um ex-dirigente do Banco do Japão afirmou que o objetivo das autoridades não é defender um nível específico do iene, mas evitar uma “queda unilateral e rápida” da moeda. Nesse contexto, manter o mercado em alerta pode ser tão eficaz quanto intervir diretamente.


Acordo de Plaza: por que a comparação voltou

A discussão reviveu comparações com o Acordo de Plaza, firmado em 1985 entre Estados Unidos, Japão, Alemanha, França e Reino Unido.


Naquele episódio, as principais economias decidiram atuar de forma coordenada para enfraquecer o dólar e fortalecer o iene e outras moedas, em resposta a desequilíbrios comerciais. O acordo levou a uma valorização expressiva do iene, que saiu da faixa de 230 por dólar para perto de 120 nos anos seguintes.


O movimento aumentou o poder de compra japonês e facilitou grandes aquisições de ativos nos Estados Unidos, mas também contribuiu para a formação de uma bolha de ativos no Japão, cujo colapso resultou em décadas de crescimento fraco e inflação baixa.


Hoje, o contexto é muito diferente. O Japão responde por cerca de 4% da economia global, contra 18% à época do Plaza. Ainda assim, o simples debate sobre coordenação cambial é suficiente para influenciar o mercado, justamente pelo peso desse precedente histórico.


O que esperar para o dólar agora?

Para o JPMorgan, o rumor sobre intervenção funcionou como catalisador de um movimento que já estava em curso.


O banco afirmou que “a semana foi uma tempestade perfeita”, combinando um ambiente macroeconômico pró-cíclico, riscos de política econômica nos EUA e relatos de rate checks pelo Fed de Nova York “com indícios de uma possível intervenção coordenada”.


Segundo o JPMorgan, “isso ativou partes inesperadas da política dos EUA e levou a uma fraqueza ampla do dólar”, movimento liderado por moedas mais cíclicas do G10, como o dólar australiano.


O banco avalia que, embora o dólar tenha passado a operar abaixo de alguns modelos de valor justo no curto prazo, “essas distorções podem se ampliar quando novas políticas entram em jogo”, citando explicitamente a perspectiva de intervenção cambial em apoio ao Japão.


A leitura do mercado também foi influenciada por sinais vindos dos EUA, após comentários de Trump sugerirem um endosso a uma postura de dólar mais fraco.


Segundo Rich Privorotsky, da Goldman Sachs, há “muitas correntes cruzadas internacionais” envolvendo o iene e a percepção de que um Federal Reserve liderado por Rick Rieder poderia ser menos duro do que outras alternativas discutidas pelo mercado.


Nesse ambiente, segundo a Goldman, investidores globais têm buscado proteção em metais e no ouro, que já passa e US$ 5.300 por onça troy.


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