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Brasil vira maior mercado mundial de carros blindados, movimentando R$ 3,5 bi por ano

A cena é angustiante. No meio da noite, um Jeep compacto fica preso no trânsito lento de uma rua residencial do Rio de Janeiro. Dois homens em uma motocicleta emparelham com o SUV; um deles desce, ergue uma arma e a aponta para a motorista.


No Brasil, esse tipo de vídeo está em toda parte — presença constante em telejornais, grupos de bairro no WhatsApp e contas locais do Instagram. Eles são recortes de câmeras de segurança que capturam encontros violentos em que homens emboscam carros presos em congestionamentos ou parados em semáforos e roubam dinheiro, celulares e joias dos ocupantes.


Mas esse vídeo era diferente. A motorista e o filho estavam em um carro blindado, reforçado contra balas. Em vez de entregar a bolsa e o celular, ela gira o volante e avança diretamente contra os atacantes. Em um instante, os homens são derrubados e ficam presos sob o SUV junto com a motocicleta, aguardando a chegada da polícia para levá-los embora.


O contra-ataque de alto risco e histórias semelhantes estão levando brasileiros a comprar carros blindados em ritmo recorde, enquanto moradores do Rio de Janeiro, São Paulo e de outras cidades buscam se proteger contra um crime violento cada vez mais visível. À medida que os vídeos alimentam a ansiedade, brasileiros de classe média e alta passam a ver a blindagem de veículos como uma camada essencial de defesa, além dos muros, câmeras e cercas que já protegem suas casas.


Carros blindados no Brasil

O Brasil é hoje o maior produtor de carros blindados do mundo, fabricando quatro vezes mais unidades do que o segundo colocado, o México. O setor movimenta 3,5 bilhões de reais (US$ 660 milhões) por ano, com a produção projetada para crescer um terço em apenas dois anos, à medida que os preços caem.


“O que faz uma pessoa buscar proteção é o medo”, disse Marcelo Silva, presidente da Abrablin, a associação nacional da indústria de blindagem. “Se as pessoas veem que têm condições financeiras e a possibilidade de transformar seu carro comum em um veículo blindado, elas fazem isso. E quem dirige um carro blindado nunca mais larga.”


O crescimento está enraizado na realidade de viver nas grandes cidades brasileiras, onde os moradores passam, em média, quase duas horas por dia em deslocamentos, presos em um trânsito que os expõe à ameaça de emboscadas.


A segurança aparece consistentemente entre as principais preocupações dos brasileiros em pesquisas de opinião pública e, embora a taxa de homicídios tenha caído na última década, ainda está entre as mais altas do mundo. O país tem apenas 2,7% da população global, mas respondeu por mais de 20% dos assassinatos no mundo em 2022, segundo um relatório da fundação Bertelsmann Stiftung.


Com mais de 80% dos moradores urbanos do Brasil dizendo que têm medo de andar em sua própria cidade, e com uma relutância generalizada da classe média e dos mais ricos em usar o transporte público, deslocar-se de carro é uma necessidade perigosa para muitos.


Quase 400 mil carros blindados circulam hoje de forma quase imperceptível pelas ruas brasileiras. Não são os comboios chamativos de políticos ou autoridades militares, mas Toyotas, Jeeps, BMWs e Volkswagens comuns que foram tornados à prova de balas. Só em 2024, a produção saltou 17%, para 34.402 veículos. Neste ano, a associação do setor espera um aumento de 16%, chegando a 40 mil unidades.


Há mais de 200 empresas no Brasil certificadas para blindar carros de civis. Em geral, os clientes compram veículos comuns em concessionárias e depois os levam às empresas de blindagem para receber vidros blindados e revestimentos balísticos.


Os preços dos sistemas mais protetivos e populares que o Exército permite que usuários não militares adquiram — conhecidos como Nível III-A — caíram cerca de 25% na última década e hoje custam entre 80 mil reais (US$ 15 mil) e 100 mil reais, tornando a proteção acessível a uma fatia muito maior da classe média e da classe média alta.


Nos níveis mais altos, a blindagem é considerada “resistente” a disparos de armas comuns de rua, incluindo pistolas de alto calibre, mas excluindo munição de uso militar.


Estilo de vida da segurança

Nos grandes centros urbanos, condomínios fechados com muros altos, cercas elétricas e múltiplos pontos de controle tornaram-se padrão para quem pode pagar. Ainda assim, essa sensação de controle desaparece quando os moradores entram nas ruas imprevisíveis.


Rogerio Leandro de Abreu, empresário de 47 anos que vive perto de São Paulo, comprou seu primeiro veículo blindado em 2022 e desde então adquiriu um segundo. Seu trajeto diário não é muito longo, e ele nunca foi atacado ao dirigir. Mas teme pela segurança da família quando a esposa e os dois filhos estão fora de casa, e por isso adicionou proteção balística a dois de seus veículos, um BMW X1 e um BMW X3.


“É muito mais tranquilo dirigir com a família no carro, reduzindo o medo e a tensão quando se para em semáforos e em congestionamentos”, disse ele. Ele tem um terceiro veículo sem blindagem na garagem e afirma que evita usá-lo porque se sente inseguro. Está considerando blindá-lo.


A liderança do Brasil na blindagem de veículos remonta aos anos 1990, em meio a um aumento de sequestros que tinham como alvo famílias ricas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Um caso de grande repercussão — uma tentativa frustrada de sequestro dos filhos do bilionário Jorge Paulo Lemann — ajudou a impulsionar as vendas depois que o carro blindado da família se mostrou decisivo na fuga.


Silva afirmou que o processo de blindagem era muito mais complicado há 20 ou 30 anos, frequentemente exigindo materiais balísticos extremamente pesados, feitos de aço, que afetavam a dirigibilidade do carro. Além disso, o encaixe geralmente não era tão preciso, deixando lacunas na proteção.


Ao longo de três décadas, o Brasil desenvolveu um ecossistema industrial sofisticado. Hoje, empresas locais produzem vidros balísticos, tecidos de proteção e painéis de blindagem à base de polímeros que ajudam a preservar o design original e o desempenho dos veículos. Essa integração vertical tornou a tecnologia brasileira competitiva no exterior.


A maior fabricante, a Carbon, com sede próxima a São Paulo, blinda até 700 carros por mês e atua como fornecedora global da Volvo AB. Pelo acordo, carros da Volvo são enviados ao Brasil para blindagem e depois entregues a clientes na Europa, no Oriente Médio e na América Latina.


Ecossistema em expansão

À medida que o mercado amadurece, a indústria brasileira volta os olhos para oportunidades no exterior. Silva disse que empresas dos Estados Unidos e da Europa têm demonstrado interesse em parcerias e transferências de tecnologia. A primeira Expo da Indústria Brasileira de Blindagem foi realizada este ano em São Paulo, reunindo empresas e representantes do Chile, Colômbia, Equador e Costa Rica.


O boom da segurança também está dando origem a novos modelos de negócio.


Quando Daniil Sergunin se mudou para o Brasil em 2020, vindo da Suíça, o conselho de amigos para comprar um carro blindado parecia absurdo. Três anos depois, ele deixou o cargo de vice-presidente do EuroChem Group AG para criar a Rhino, uma empresa de transporte por aplicativo que funciona como Uber ou Lyft, mas utiliza exclusivamente veículos blindados.


As operações começaram em janeiro de 2024, em São Paulo. A empresa tem 300 mil usuários cadastrados. Possui frota própria, e seus motoristas são treinados em segurança. Sergunin recusou-se a revelar detalhes financeiros da Rhino, mas disse que ela foi fundada com um investimento inicial de 25 milhões de reais e que depois recebeu mais 15 milhões de reais de investidores.


Renata Porto Boccia, criadora de conteúdo de 34 anos que vive em São Paulo, disse que sempre fica nervosa ao sair sozinha, especialmente à noite. Ela já foi assaltada por homens armados que quebraram os vidros do táxi em que estava.


Há cinco anos, ela comprou seu próprio carro blindado. E agora, sempre que não dirige, contrata a Rhino para ir a jantares ou baladas com amigos à noite.


“É muito perigoso, especialmente para uma mulher, andar sozinha, pegar carros que não são blindados”, disse Boccia em entrevista. “Sou uma pessoa muito otimista, mas infelizmente acho que esse movimento só vai crescer. Não vejo melhora na questão da violência, e o trânsito só piora.”


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