Lígia, Gerluce e Joelly, protagonistas da novela das nove da Globo, “Três Graças”, engravidaram na adolescência. Na ficção, vivem na periferia de São Paulo, na comunidade chamada Chacrinha. O mesmo aconteceu fora na vida real com Quelle, 40, e Emilly, 20, moradoras da Penha, na zona leste de São Paulo, e Edlucia, 57, que vive no interior da Bahia.
A trajetória das três Graças, sobrenome das personagens, reflete a vida de muitas mulheres, em sua maioria negras, submetidas à injustiça social, à pobreza e à violência. Edlucia Barbosa Amorim engravidou aos 13 anos, após sofrer um estupro. Quelle Cristina Mourão Oliveira, uma das filhas de Edlucia, diarista, teve a primeira filha aos 15. Da segunda gestação nasceu Emilly Victoria Amorim, hoje recepcionista, que engravidou aos 16 e é mãe de um menino de três anos.
Segundo dados de 2024 do Sinasc (Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos), do DataSUS, a cada hora nascem, em média, 31 bebês filhos de mães adolescentes no Brasil.

Zanone Fraissat/FolhaPress
Em 2000, o país registrou 750.537 nascimentos de filhos de adolescentes —28.973 partos de meninas entre 10 e 14 anos e 721.564 de jovens de 15 a 19 anos. Naquele ano, um a cada quatro bebês nascidos no país era filho de mãe adolescente.
Em 2024, esse número caiu para 272.520 nascimentos, uma redução de 63,7% —11.981 partos de meninas de 10 a 14 anos e 260.539 de jovens entre 15 e 19. Assim, um em cada nove bebês nascidos no período tinha mãe adolescente.
Em relação à frequência entre as próprias adolescentes, os dados mais recentes mostram que, em 2022, cerca de 42 jovens de 15 a 19 anos a cada 1.000 tiveram um filho. Entre meninas de 10 a 14 anos, a taxa foi de 2,1 partos para cada 1.000 adolescentes da faixa etária.
Para Denise Monteiro, membro da Comissão Nacional Especializada de Ginecologia da Infância e Adolescência da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) e profissional com mais de 40 anos de atuação na área, os fatores que levam à gravidez precoce envolvem dimensões clínicas, sociais e familiares.
Ela destaca seis desafios centrais, entre eles o casamento precoce. Mesmo após a mudança na legislação, em 2019, que proibiu o casamento de menores de 16 anos, uniões informais persistem e expõem adolescentes à maternidade antes do tempo.
O abandono escolar também é crítico. Muitas jovens interrompem os estudos ao engravidar, o que aumenta o risco de uma nova gestação e perpetua ciclos de pobreza. Monteiro ressalta ainda a maternidade solitária, quando a adolescente não conta com apoio familiar ou do parceiro, e a reincidência da gravidez, que atinge 25,7% das jovens de 15 a 19 anos e 4,9% das meninas de 10 a 14, segundo o Sinasc.
Outros desafios envolvem a gravidez decorrente de violência sexual. Pela legislação brasileira, toda relação sexual com menores de 14 anos é considerada estupro. Apesar disso, poucas adolescentes conseguem acessar o aborto legal, previsto desde 1940 em casos de estupro, risco de vida da gestante e, desde 2012, gestação de feto anencéfalo.
Edlucia tinha 13 anos quando engravidou, em 1981. Nascida na zona rural, foi enviada pelos pais para trabalhar como diarista na casa de uma família no centro de Itaberaba, no interior da Bahia —profissão que exerce até hoje. Abandonou os estudos e não aprendeu a ler nem escrever, apenas a assinar o nome.
A história dela é contada pela filha e pela neta. A reportagem tentou contato por telefone, mas, segundo a família, Edlucia não usa tecnologia e não conseguiria atender. Quelle relata que a mãe carregou frustrações por anos e que isso marcou profundamente a dinâmica familiar.
“A vida inteira dela foi difícil. Tudo o que ela queria era estudar e ter um futuro diferente, mas não conseguiu”, afirma.
A psicóloga Ana Silvia Sanseverino Rennó, especialista em adolescentes, explica que a gravidez antes dos 18 anos interrompe o desenvolvimento emocional da menina e a obriga a assumir responsabilidades para as quais ainda não está pronta.
Segundo ela, quando avó, mãe e filha engravidam cedo, isso revela um ciclo intergeracional de trauma: a primeira gestação precoce fragiliza vínculos afetivos, e essas falhas emocionais se repetem nas gerações seguintes.
A especialista destaca que muitas adolescentes engravidam em contextos de violência sexual e que o trauma permanece ativo por anos, afetando autoestima, limites e escolhas afetivas.
Quelle conta que engravidou aos 15 por falta de acesso à educação sexual —não sabia que precisava usar métodos contraceptivos e não entendia muito bem sobre o sexo em si. Deixou os estudos e começou a trabalhar como diarista para sustentar a filha.
Segundo dados de 2015 do IBGE, a gravidez é a principal causa de evasão escolar feminina na América Latina e, no Brasil, 60% das mães adolescentes não estudam nem trabalham.
Depois da primeira filha, Quelle teve mais duas gestações com o mesmo marido. No início, sentiu vergonha por causa das críticas de familiares e amigos —e pela rejeição do pai da criança. Ela permaneceu anos casada com o pai dos filhos, um homem com dependência química que a agredia verbalmente.
A filha dela, Emilly Vitória, engravidou aos 16 ainda no começo de um relacionamento. Descobriu a gestação após passar mal e notar atraso menstrual. A reação inicial da mãe foi de raiva, mas logo veio o apoio.
Durante a gravidez, Emilly se afastou da escola devido a enjoos, pressão baixa e dificuldade para comer. Com autorização da direção, passou a estudar de casa e concluiu o ano letivo. Voltou às aulas em 2023, quando finalizou o ensino médio.
Na época da descoberta, ela e o namorado chegaram a cogitar interromper a gestação, mas a irmã mais velha insistiu para que ela não fizesse isso —apoio que se tornou decisivo para a continuidade da gravidez. Hoje, Emilly não está mais com o pai do filho, mas mantém diálogo com ele. Mora com a mãe, o filho, a irmã, o irmão mais novo e o padrasto.
A escritora Winnie de Campos Buen, jurista especialista em raça, gênero e justiça social, afirma que casos como o da família de Quelle não podem ser interpretados como “escolhas individuais”, mas como reflexo direto de violências históricas e da ausência de políticas públicas voltadas às meninas negras.
“São meninas negras e pobres vivendo em territórios marcados pela ausência do Estado e pela presença de violências múltiplas. A repetição não acontece por coincidência: acontece porque as condições sociais que cercaram a avó são quase as mesmas que cercam a mãe e agora cercam a filha.”
Para Buen, a escola continua sendo um ponto frágil porque nunca foi estruturada para acolher essas meninas. “A escola não está preparada para proteger uma adolescente que vive violência sexual, pobreza extrema, sobrecarga doméstica ou maternidade precoce. Ela deixa de ser possível não por falta de vontade da menina, mas por falta de estrutura institucional”, diz.
Ela ressalta que a educação tem um papel transformador que o país ainda subestima. “Quando uma menina negra permanece na escola, ela não está só aprendendo conteúdos; ela está acessando proteção, redes, informação e futuro. A evasão escolar não é um prejuízo pedagógico, é estrutural.”