Em bairros alagados, moradores mantêm rotina apesar da cheia do Juruá

Nos bairros Várzea e Miritizal, em Cruzeiro do Sul, as águas do rio Juruá já invadem ruas, quintais e residências, mas a maioria dos moradores segue em casa e mantém a rotina. Como a cheia é recorrente, parte das famílias se adapta sem precisar se deslocar para abrigos, e crianças até aproveitam para brincar nas ruas alagadas. As duas localidades ficam próximas ao Centro e se desenvolveram às margens do Juruá.


Apesar da adaptação, a cheia impõe desafios diários. Os moradores precisam reorganizar a rotina dentro e fora de casa, elevando móveis, utilizando canoas para deslocamento e lidando com a preocupação com alimentação e energia elétrica.



Várzea


Sabrina Nascimento, de 28 anos, nasceu na Várzea e conta que os moradores tentam manter o convívio, mesmo em meio às dificuldades. “A gente se reúne, conversa e até entra na água, mas não é festa. É o jeito que encontramos de enfrentar. A maioria não vai para abrigo, levanta os móveis e segue como dá”, relata.


Emanoel Oliveira, morador próximo à escola Maria Lima, relata que já precisou se adaptar à casa alagada. “A água entra, a gente levanta tudo dentro de casa e se prepara antes, comprando comida. Quando corta a energia, fica mais difícil ainda, porque tem que usar lanterna e fazer tudo mais cedo. Nunca saí. A gente se acostuma, mas não é fácil”, conta, destacando que pesca na região.



Mesmo com ruas alagadas, a cheia também atrai visitantes. Marcelo de Araújo, do bairro Telégrafo, foi pescar com a família. “Todo ano a gente vem. Dá pra pescar na beira da rua mesmo. Já peguei curimatã, piau, ajuda até na alimentação”, afirma.


Para moradores de longa data, a cheia é rotina, mas ainda impõe desafios. Maria de Nazaré Lima dos Santos, de 65 anos, diz que todos os anos alaga a casa. “A água entra dentro de casa, tenho que levantar tudo. Pra sair é difícil, mas aqui no bairro todo mundo se ajuda. Compramos o que dá por perto, saímos no final da tarde e conversamos. Assim vamos vivendo”, relata.



Miritizal


No bairro Miritizal, a situação é semelhante. Pedro Rosa, conhecido como Pedim, precisou usar canoa para levar a família até o Porto próximo ao Centro para um funeral. “Pra sair de casa só de bote. A água já passa do joelho em alguns pontos. Quem não tem transporte depende dos outros”, explica. Ele também destaca a preocupação com o consumo. “A água está suja, não dá pra beber. Recebemos água mineral da prefeitura, mas alimento ainda não chegou pra todo mundo”, afirma.


Sara Laiane Oliveira, moradora do Miritizal há 32 anos, diz que a cheia já faz parte da vida, mas ainda traz prejuízos. “Todo ano alaga. A gente levanta os móveis, mas muitos acabam estragando. Quando a água baixa, tem que lavar tudo por causa do mau cheiro e da sujeira”, conta. Ela ressalta ainda as dificuldades de locomoção e o impacto sobre os moradores mais vulneráveis. “Quem não tem barco precisa pedir ajuda. Minha avó, por exemplo, já está com água na casa e tem dificuldade pra andar. A gente faz o possível pra ajudar”, relata.


No sábado (4), o rio Juruá alcançou 14,12 metros, afetando quase 30 mil pessoas.


Confira imagens do bairro Várzea captadas por Sabrina Nascimento e Marcos Santos.


Compartilhar

Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn

Últimas Notícias