A inteligência artificial (IA) está mudando rapidamente a nossa realidade. Atores e artistas estão em pânico com os modelos de IA copiando seus trabalhos, suas aparências e até suas vozes. Os preços da memória RAM e dos discos SSD estão disparando porque as fabricantes estão preferindo vender os componentes para empresas de IA (que vão usar essas peças em centros de dados que ainda nem existem). E a ameaça aos empregos é tão séria que Elon Musk já disse que, no futuro, “trabalhar será opcional” e as pessoas vão depender de uma renda básica do governo para sobreviver.
Um dos fatores menos discutidos dessa nova ordem mundial é o consumo de água por parte dessa tecnologia – que deve se tornar uma preocupação cada vez maior no futuro. Mas, afinal, como a IA usa água para funcionar? Isso acontece de três formas:
- Em sistemas de refrigeração de centros de dados
- Na geração de eletricidade para manter esses centros de dados e outros sistemas funcionando
- Durante a fabricação do hardware necessário (por exemplo, os servidores)
Atualmente, há mais de 11 mil centros de dados em funcionamento em todo o mundo. Segundo o mapa interativo do Data Center Map, os EUA são o país com a maior quantidade, cerca de 4 mil. O Brasil tem 198 no momento.
Segundo a Sociedade Americana de Engenheiros de Aquecimento, Refrigeração e Ar-Condicionado, a temperatura ideal para um centro de dados fica entre 18°C e 27°C. Países mais quentes, como o Brasil, precisam de mais energia para conseguir manter essa meta.
Um único centro de dados usa aproximadamente 19 milhões de litros de água por dia apenas para refrigeração, o que equivale ao uso de uma cidade com entre 10 mil e 50 mil habitantes. Essa água precisa ser doce, pois a água do mar contém sais que aceleram a corrosão de metais, diminuindo drasticamente a vida útil de tubulações e maquinários, entre outros problemas.
O problema é que apenas 3% de toda a água do mundo é doce e apenas 0,5% de toda a água do mundo está acessível e é segura para o consumo humano.
A questão das redes elétricas
As redes elétricas já dão sinais de que podem não aguentar o tranco. Em 2023, os centros de dados já consumiam 4% de toda a eletricidade dos EUA e as previsões indicam que, até 2028, esse percentual suba para 12% no país. O estado do Texas, por exemplo, aprovou em 2025 uma lei que prevê um “interruptor de desligamento” (ou “kill switch”) que permitirá às autoridades desconectar grandes consumidores, como os centros de dados, em momentos em que a rede esteja sob “estresse extremo”.
As empresas donas desses centros de dados (como Google, Microsoft e AWS) se organizaram em uma associação lobista, a Coalizão de Centros de Dados, e afirmam que a proposta texana é discriminatória, já que os centros de dados precisam de uma rede confiável e estável.
No entanto, as discussões no país avançam para um futuro onde essas empresas precisarão gerar a própria energia para manter seus centros de dados. Várias big techs, como Amazon, Microsoft, Oracle e xAI, estão explorando a criação de usinas energéticas, utilizando combustíveis fósseis, como o gás natural, e painéis solares. O Google, por exemplo, comprou em dezembro uma empresa de geração de energia por US$ 4,75 bilhões.
Quanto gasta cada prompt?
Segundo cientistas da Universidade da Califórnia, estima-se que cada comando de IA com 100 palavras utilize aproximadamente uma garrafa de água (ou 519 mL). Esse é um valor bem mais alto do que o afirmado em 2025 por Sam Altman, CEO da OpenAI, a empresa que faz o ChatGPT, quando disse que um prompt solicitado à sua famosa IA gasta apenas 0,32 mL de água, “menos do que uma colher de chá”.
Por que essa diferença? O número divulgado por Altman esconde um problema: ele leva em conta apenas a energia consumida na hora do prompt, e não aquela usada para erguer o sistema sobre o qual o ChatGPT funciona.
Um estudo recente do banco Morgan Stanley tentou fazer justamente esse cálculo — se você levar em conta a fabricação de toda a infraestrutura, o refrigeramento dos servidores, a manutenção, etc., quanta água é consumida?
A resposta é estarrecedora: em 2024, os centros de dados consumiram 95 bilhões de litros de água. Em 2028, serão 1.068 bilhões de litros, ou seja, 11 vezes mais.
E ainda tem outro problema a ser levado em conta: o aquecimento global. “Mais da metade dos principais centros de dados do mundo estão em áreas que já enfrentam risco físico médio na bacia hidrográfica, ou vulnerabilidade de nível médio, como ameaças de seca, inundações e declínio da qualidade da água”, diz o estudo. A Bloomberg reporta que dois terços dos novos centros de dados em construção nos EUA desde 2022 estão em áreas que já enfrentam risco hídrico.
Fonte: Revista Galileu