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Órgãos de segurança identificam mudança na atuação do tráfico no Acre

Foto: Cedida/Gefron

Os dados mais recentes do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, apontam um paradoxo no enfrentamento ao tráfico de drogas no Acre em 2025: enquanto o número de ocorrências de tráfico aumentou, o volume total de entorpecentes apreendidos caiu de forma significativa. O cenário indica uma mudança clara no modo de atuação das organizações criminosas no estado, principalmente pelas fronteiras com Peru e Bolívia.


Ao longo de 2025, as forças de segurança do Acre registraram 868 ocorrências de tráfico de drogas, o equivalente a uma média de duas por dia. Em relação a 2024, houve um crescimento de 4,58% nos registros, reforçando a persistência da atividade criminosa. Em sentido oposto, a quantidade de drogas retirada de circulação diminuiu, sinalizando uma estratégia cada vez mais baseada no fracionamento das cargas e na pulverização da distribuição.


No caso da maconha, foram apreendidos 258 quilos durante o ano, uma redução de 34,74% em comparação com 2024. Apesar da média de uma apreensão diária, os dados mostram forte oscilação mensal. Os maiores volumes foram registrados em maio, com 93 quilos, e em outubro, com 50 quilos. Já os meses de agosto e setembro tiveram apenas 1 quilo apreendido cada, além de junho, com 7 quilos, e julho, com 4 quilos, evidenciando períodos de baixa circulação ou maior sucesso do tráfico em driblar a fiscalização.


A queda foi ainda mais expressiva nas apreensões de cocaína, principal droga em circulação no estado. Em 2025, foram apreendidos 856 quilos, volume 54,08% menor do que o registrado no ano anterior. Mesmo com a redução, a cocaína segue liderando em quantidade absoluta de entorpecentes retirados de circulação. O maior registro mensal ocorreu em maio, com 235 quilos, seguido de outubro, com 123 quilos. Em contrapartida, março teve apenas 8 quilos apreendidos, enquanto setembro e novembro registraram 4 quilos cada.


Foto: Whidy Melo/ac24horas

Para o coordenador da Divisão Especializada de Investigações Criminais Especiais (DEIC) da Polícia Civil do Acre, Pedro Paulo Buzolin, a dinâmica do tráfico sempre esteve ligada a grandes estruturas financeiras, ainda que, por muito tempo, apenas os elos mais frágeis da cadeia fossem alcançados. Segundo ele, historicamente o sistema repressivo chegava apenas às chamadas “mulas”, pessoas sem capacidade financeira compatível com o valor da droga transportada, mas com a mudança de foco para o combate ao dinheiro sujo, o valor disponível para investimentos pode ter diminuído. “Para movimentar droga, você precisa de uma capacidade financeira muito alta. Aquela pessoa que cai com a droga não comprou aquele carregamento, ela estava a serviço de alguém. Essa lógica sempre existiu”, afirmou.


Buzolin também menciona que com a maior integração entre as forças de segurança estaduais, em parceria com as polícias Federal e Rodoviária, muitos carregamentos com passagem pelo Acre, por estratégia investigativa, são monitoradas no percurso, mas apreendidas somente nos seus destinos finais. “Se a gente fosse concentrar só no flagrante, eu garanto pra você, nós nunca iríamos chegar no traficante que não pega a droga. O transportador, algumas vezes, nem tem ciência da carga. Ao invés de fazer uma barreira de fiscalização para apreensão, eu vou trabalhar na investigação, extrair até a última gota de informação para chegar a lugares que não chegaríamos”, explicou.


Consultada pela reportagem, a superintendência da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no Acre reconheceu a redução nos volumes apreendidos desde 2023, mesmo com o reforço das ações de fiscalização. Em nota, a superintendência informou que a tendência é observada de forma conjunta entre as instituições de segurança, embora ainda não exista um estudo conclusivo sobre as causas. “Elencamos, além das situações já citadas pelas demais forças, que o crime tem utilizado cada vez mais novas rotas e modos de traficância”, escreveu em um trecho.


A avaliação da Polícia Rodoviária Federal é reforçada pelo coordenador do Grupo Especial de Fronteira (Gefron) no Acre, coronel Assis dos Santos. Segundo ele, a ampliação das operações para áreas antes pouco fiscalizadas provocou uma adaptação direta por parte do crime organizado. “Quando as grandes apreensões passam a gerar prejuízos elevados, eles mudam a estratégia. Passam a transportar menores quantidades em mais pontos, reduzindo o risco e o prejuízo. As grandes apreensões ficaram raras, mas aumentaram as pequenas”, explicou.


Em 2025, o Gefron diz ter realizado 231 operações, com 159 ocorrências gerais, sendo 34 relacionadas diretamente ao tráfico de drogas. Ao todo, foram apreendidos 851,38 quilos de entorpecentes pelo grupamento, além de 80.245 maços de cigarros contrabandeados, 53 veículos, 10 armas e 99 conduções ou prisões. As ações resultaram em uma descapitalização estimada em mais de R$ 16,4 milhões para o crime organizado.


Dos Santos destaca ainda que o tráfico de drogas não é a única fonte de renda das organizações criminosas na região. Segundo ele, a venda de cigarros contrabandeados já figura como a segunda maior atividade financeira do crime organizado no Acre, o que explica o reforço das ações contra o descaminho na faixa de fronteira. “É uma atividade altamente rentável e que financia outras práticas ilícitas”, afirmou.


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