A regulamentação do mercado de apostas esportivas no Brasil completa um ano em janeiro de 2026 com um balanço marcado por crescimento econômico geração de empregos formalização de novas profissões e forte impacto na arrecadação. Em doze meses o setor deixou de atuar em uma zona cinzenta para se consolidar como uma indústria regulada que movimenta bilhões de reais e passou a exigir estruturas mais robustas de governança tecnologia e compliance.
Desde a entrada em vigor das regras em janeiro de 2025 as casas de apostas ampliaram significativamente suas equipes. Além de áreas tradicionais como marketing tecnologia atendimento e trading esportivo surgiram departamentos diretamente ligados às exigências legais como prevenção à lavagem de dinheiro combate a fraudes e ao financiamento do terrorismo. Estudo da LCA Consultores e Cruz Consulting em parceria com a Associação Nacional de Jogos e Loterias e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável aponta que em 2025 foram gerados mais de 10 mil empregos diretos e outros 5,5 mil indiretos. No período também foram formalizadas 67 novas ocupações no mercado de trabalho brasileiro.
Esse movimento veio acompanhado de uma mudança no perfil dos profissionais. Na Ana Gaming controladora das marcas 7k Cassino e Vera o CEO Marco Túlio veio de fora do setor após passagem pela Localiza. Segundo ele a regulamentação acelerou o amadurecimento do mercado.
“Ainda há uma lacuna significativa na formação de profissionais especializados no ecossistema de apostas sobretudo em áreas como trading esportivo compliance regulatório e operação de plataformas. Muitos dos talentos estão sendo adaptados de setores adjacentes — como fintechs streaming e agências digitais. Vejo que esse movimento reflete uma estratégia natural de amadurecimento do setor que está deixando de ser um nicho para assumir uma postura de grande player do entretenimento”, afirma.
Dados da Michael Page reforçam esse cenário. Apenas no segundo semestre de 2024 quando o Brasil se preparava para a entrada no mercado regulado houve aumento de 37% na procura por contratações no segmento. Para Mila Rabelo diretora de compliance da Paag essa busca por executivos de outros setores está ligada à profissionalização acelerada. “Com a regulamentação em andamento as empresas passaram a demandar estruturas mais robustas e lideranças com experiência em ambientes complexos”, avalia.
A regulamentação também atraiu empresas estrangeiras. A InPlaySoft companhia internacional de tecnologia para apostas esportivas instalou operação no Brasil com investimento estimado em mais de R$ 90 milhões. “Temos observado que cada vez mais empresas tradicionais estão entrando no ramo das apostas esportivas. Conforme essas empresas vão transformando o mercado e apresentando essa nova visão acontece o mesmo fenômeno com os profissionais”, afirma Gustavo Salvador head de desenvolvimento de negócios da empresa.
Além da geração de empregos o setor passou a pagar salários acima da média nacional. O estudo da LCA aponta que mais de 53% dos vínculos são ocupados por trabalhadores com ensino superior e que 63,8% recebem mais do que quatro salários mínimos. Apenas os empregos diretos respondem por R$ 460 milhões em massa salarial anual além de R$ 87 milhões em encargos sociais.
O efeito multiplicador na economia também é relevante. A estimativa é que cada R$ 1,00 investido em capital próprio gere até R$ 3,74 em demanda adicional em outros setores. Até agora foram R$ 7,5 bilhões investidos em capital social o que pode resultar em R$ 28 bilhões de demanda potencial ao longo do tempo.
Casos concretos ilustram esse avanço. Em maio de 2025 a Reals inaugurou uma sede de 6 mil metros quadrados em Alphaville com capacidade para até 1500 colaboradores. “A inauguração da nova sede representou um marco crucial para a Reals simbolizando não apenas um avanço físico mas o crescimento exponencial que projetávamos”, afirma o CEO Rafael Borges.
No campo fiscal os números também impressionam. Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação mostram que entre janeiro e setembro de 2025 as bets arrecadaram mais de R$ 3 bilhões em tributos federais. No mesmo período o Gross Gaming Revenue superou R$ 30 bilhões. Parte desses recursos foi destinada a áreas como Esporte Turismo Segurança Pública Seguridade Social e Educação. O governo também contabilizou 25 milhões de apostadores ativos o equivalente a 12% da população.
O desempenho colocou rapidamente o Brasil entre os maiores mercados do mundo. Estudo da Regulus Partners divulgado pela BBC News aponta que o país deve encerrar 2025 como o quinto maior mercado global de apostas com faturamento estimado em US$ 4,139 bilhões cerca de R$ 22 bilhões. “O Brasil deve se tornar um dos maiores mercados regulados do mundo e isso naturalmente atrai investimentos inovação e estrutura profissional”, diz Marco Túlio.
Apesar dos avanços o principal desafio segue sendo o combate ao mercado ilegal. Estimativas indicam perdas anuais de R$ 10,8 bilhões com apostas irregulares. Pesquisa aponta que 61% dos entrevistados admitiram ter apostado em plataformas ilegais em 2025 e a maioria tem dificuldade para identificar sites autorizados. “Para 2026 é imprescindível que as autoridades públicas estejam engajadas no combate aos operadores ilegais que prejudicam todo o setor”, afirma Pietro Cardia Lorenzoni diretor jurídico da ANJL.
O consenso no mercado é que após um primeiro ano de forte expansão a regulamentação abriu um caminho sem volta. A projeção para 2026 é de crescimento cerca de 20% maior do que o período atual com a expectativa de mais investimentos mais empregos e um ambiente cada vez mais estruturado e transparente.


