Fundo eleitoral e tempo de TV tornam-se trunfos centrais na disputa por poder em 2026

Termina nesta quinta-feira (3) a veiculação da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão (Arquivo Agência Brasil)

A eleição de 2026 começa muito antes do pedido oficial de votos. Com regras que concentram recursos financeiros e tempo de propaganda nas mãos das direções partidárias, a disputa por fundo eleitoral e espaço na TV se consolida como um dos principais fatores de poder na corrida presidencial e nas eleições estaduais do próximo ano.


Hoje, a distribuição desses ativos é definida a partir do tamanho das bancadas no Congresso e do desempenho das siglas nas eleições anteriores. Na prática, partidos maiores entram na campanha com vantagem estrutural, enquanto legendas médias e pequenas passam a usar apoio político e alianças como moeda para compensar a menor fatia de recursos.


Fundo eleitoral no centro do poder

O fundo eleitoral tornou-se um dos principais instrumentos de controle dentro dos partidos. A legislação dá às direções nacionais ampla autonomia para decidir como o dinheiro será distribuído entre candidatos, estados e cargos em disputa. Isso reforça o poder das cúpulas partidárias e transforma o acesso aos recursos em um elemento central de fidelidade política.


Na prática, a maior parte do fundo tende a ser direcionada a candidaturas consideradas estratégicas, seja para fortalecer projetos nacionais, seja para preservar bancadas no Congresso. Candidatos competitivos que não contam com respaldo interno acabam enfrentando dificuldades para viabilizar campanhas robustas, mesmo quando aparecem bem posicionados nas pesquisas.


Em 2026, esse mecanismo ganha ainda mais peso diante do grande número de sucessões abertas nos governos estaduais e do impacto direto que essas disputas terão na formação das bancadas federais a partir de 2027.


Concentração de recursos

O modelo atual reforça um padrão recorrente do sistema político brasileiro: partidos com maior representação continuam acumulando a maioria dos recursos disponíveis. A consequência é a ampliação da desigualdade entre campanhas e a redução do espaço para candidaturas fora das estruturas tradicionais.


Mesmo em um cenário de crescente uso das redes sociais, o dinheiro segue sendo decisivo para financiar equipes, produção de conteúdo, deslocamentos e presença territorial.


Sem acesso ao fundo, campanhas ficam mais dependentes de apoios partidários ou de estratégias de baixo alcance, o que limita a competitividade.


Tempo de TV como moeda

Apesar da perda de protagonismo diante das plataformas digitais, o tempo de rádio e televisão continua sendo um ativo relevante, especialmente nas negociações políticas. Mais do que um instrumento direto de convencimento do eleitor, ele funciona como moeda de troca na formação de alianças.


Partidos com pouca expressão eleitoral, mas com segundos importantes de propaganda, ganham peso nas articulações para chapas majoritárias.


Em 2026, essa dinâmica tende a se repetir tanto na eleição presidencial quanto nas disputas pelos governos estaduais, influenciando a composição de coligações e a escolha de candidatos a vice.


Alianças guiadas por cálculo, não por afinidade

O resultado desse sistema é uma campanha moldada por pragmatismo. As regras estimulam alianças amplas, muitas vezes sem coerência programática, baseadas na soma de recursos financeiros e tempo de exposição.


O desenho institucional acaba favorecendo as máquinas partidárias e reduzindo o espaço para candidaturas mais independentes ou de perfil outsider.


Com um Congresso fragmentado e um ambiente político polarizado, a tendência é que esse tipo de arranjo ganhe ainda mais força em 2026, tanto no plano nacional quanto nos estados.


Disputas estaduais e presidenciais

Nas eleições estaduais, a influência das regras é ainda mais visível. Candidatos ao governo dependem do aval das direções nacionais para garantir acesso ao fundo e ao tempo de TV, o que amplia a interferência das cúpulas partidárias em disputas locais.


Na eleição presidencial, a lógica é semelhante: a viabilidade das candidaturas passa, em grande medida, pela capacidade de montar alianças que garantam estrutura financeira e exposição.


Mesmo quando grandes volumes de recursos não se convertem automaticamente em votos, eles seguem determinando quem consegue montar campanhas competitivas e ocupar espaço relevante no debate público.


A eleição antes da campanha

Com as regras atuais, parte significativa da disputa de 2026 será decidida longe do eleitor. A definição de prioridades internas, a divisão do fundo eleitoral e a negociação do tempo de propaganda ocorrem meses antes do início oficial da campanha.


Quando o horário eleitoral começar, boa parte do jogo já estará em andamento. Para o eleitor, a disputa se manifesta na TV e nas redes sociais. Nos bastidores, porém, o resultado começa a ser desenhado bem antes, na disputa silenciosa por dinheiro, tempo e poder dentro dos partidos.


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