A estratégia eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL) para 2026 tem seguido um roteiro claro: consolidar o bolsonarismo raiz antes de qualquer movimento em direção ao centro político. A avaliação é do cientista político Josué Medeiros, professor da UFRJ e coordenador do Observatório Político e Eleitoral, que vê na pré-campanha do senador um esforço concentrado em “organizar a própria tropa” e resolver a disputa interna da direita antes da eleição propriamente dita.
Na leitura do analista, Flávio atua segundo a lógica clássica de candidatos que já dispõem de um núcleo eleitoral consolidado. “Ele precisa chegar ali em março com algo em torno de 25% para dizer: ‘agora sou eu mesmo’”, diz Medeiros, em referência ao prazo de desincompatibilização e ao momento em que a correlação de forças dentro do campo bolsonarista tende a se definir.
“Ele não pode chegar em fevereiro e isso ter se invertido”, afirma.
A prioridade, portanto, não é convencer novos eleitores, mas impedir que nomes como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) ou Romeu Zema (Novo-MG) avancem sobre o eleitorado bolsonarista.
“O Flávio tem os votos. Por que ele vai entregar isso para outro candidato?”, pergunta Medeiros, ao destacar que a transferência voluntária de votos não faz parte da lógica eleitoral.
Essa estratégia ajudaria a explicar movimentos recentes do senador, como a intensificação de agendas com o eleitorado evangélico, entrevistas a influenciadores alinhados ao bolsonarismo e sinais explícitos de continuidade do projeto político do pai, Jair Bolsonaro.
Segundo o cientista político, “todos os movimentos do Flávio agora são de organizar a própria tropa”, com o objetivo de chegar ao início formal da corrida presidencial sem contestação interna relevante.
Um dos exemplos mais evidentes da opção por falar prioritariamente ao núcleo duro do bolsonarismo é a indicação simbólica de Eduardo Bolsonaro para o Itamaraty em um eventual governo Flávio.
Para Medeiros, o gesto funciona como sinalização política direta. “Ele está dando um monte de recados para a base bolsonarista”, afirmou.
Disputa interna
Para Medeiros, a oposição ainda não resolveu sua principal equação. “Não está certo ainda que o Flávio vai conseguir desbancar o Tarcísio ou o Zema”, diz. Ainda assim, ele avalia que, uma vez em campo, a tendência é o senador se impor sobre os demais. “Quando o Bolsonaro entra em campo, a tendência é derrotar essas outras postulações”, afirma o cientista político, ao mencionar o peso do sobrenome e da base fiel.
Nesse contexto, a aposta é clara. “Não existe, na história das eleições, alguém que tenha votos e abra mão deles em nome de uma chance hipotética no segundo turno”, diz Medeiros. A estratégia, segundo ele, é chegar fortalecido à largada da campanha, mesmo que isso implique enfrentar resistências mais amplas depois.
Pesquisas citadas pelo cientista mostram Flávio Bolsonaro aparecendo à frente de outros nomes da direita em cenários espontâneos, enquanto governadores com bom desempenho regional sequer pontuam nesse recorte. Para Medeiros, esse dado reforça a convicção do senador de que a disputa interna está ao seu alcance, desde que consiga manter a base coesa até o primeiro semestre.
Centro em espera
A opção por adiar o diálogo com o centro político tem efeitos colaterais evidentes. Ao não investir, por ora, na redução da rejeição, Flávio dificulta a construção de alianças mais amplas, especialmente com partidos do Centrão. Ainda assim, Medeiros avalia que esse não é o foco do senador neste momento.
“Ele não está pensando só em 2026, está pensando inclusive em 2030”, afirma. “O Flávio é um político muito novo. Ele não está pensando só nessa eleição”, completou. A leitura é que uma candidatura presidencial, mesmo sem vitória, pode servir para consolidar liderança nacional e preservar capital político para o futuro, sobretudo em um cenário em que Lula não estará mais na disputa.
Enquanto Flávio concentra esforços na base, partidos de centro e governadores tendem a adotar uma postura mais pragmática, priorizando as disputas estaduais. Segundo Medeiros, o Centrão já começa a fazer essa conta. “Agora eles vão começar a olhar para os estados. O Centrão vai pensar o que fazer para salvar a própria pele em cada estado”, afirma.
Na avaliação do cientista, a radicalização no plano nacional empurra esses partidos para uma lógica defensiva. “Eles tinham mais perspectiva de vitória com outros nomes”, diz. Diante da consolidação de Flávio, a tendência é liberar palanques ou permitir alianças distintas conforme o contexto local.
A consequência é um tabuleiro cada vez mais fragmentado. Para Medeiros, ao priorizar a fidelidade ideológica e o confronto, Flávio contribui para uma eleição em que o centro joga principalmente nos estados. “A disputa nacional fica mais polarizada, enquanto o jogo real do Centrão passa a ser regional”, afirma.


