Em um movimento para tentar reunir apoio internacional à pré-candidatura que ainda não ganhou tração interna, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) transformou seus primeiros dias em Israel numa sequência de gestos políticos, diplomáticos e simbólicos que aliados tratam como tentativa de reposicionar sua imagem para 2026.
A viagem, articulada com forte atuação do irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), combina pedido de apoio à candidatura, agenda com autoridades estrangeiras e rituais religiosos que dialogam diretamente com a base conservadora.
Flávio desembarcou em Jerusalém no dia 19 e, desde então, o entorno trabalha para apresentar o giro como mais do que uma missão parlamentar. A leitura interna é de que se trata de um ensaio de política externa de um eventual governo Flávio, com foco em segurança, tecnologia e alinhamento com governos da direita internacional.
A Conferência Internacional de Combate ao Antissemitismo, que começou nesta segunda-feira, virou o eixo público da agenda. O senador foi convidado a discursar e fala nesta terça-feira, às 14h no horário local. Antes mesmo da fala, porém, a comitiva já explorava politicamente o ambiente do evento, que reúne autoridades estrangeiras e conta com a presença do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
Nesta segunda, Eduardo Bolsonaro fez um aceno direto à linha política que a família tenta imprimir à viagem. Em sua participação, pediu apoio à pré-candidatura do irmão:
— Nós vamos derrotar eles (a esquerda e Lula). Meu irmão, senador Flávio Bolsonaro, vai concorrer à Presidência em outubro e eu peço que o apoiem. Meu pai poderia concorrer, mas está preso por lawfare — disse, ao final de sua fala.
No final do dia, participou de jantar de gala que Netanyahu também compareceu. O primeiro-ministro de Israel discursou na solenidade e citou Flávio nominalmente, ao saudar congressistas de todo o mundo:
— Nós temos aqui membros de parlamentos, incluindo os dois irmãos, Eduardo e Flávio Bolsonaro. É muito bom vê-los, do Brasil. Temos muitos parlamentares, integrantes distintos, quero desejar boas vindas a todos e espero encontrar todos.
A imagem de proximidade do senador com o premiê israelense é vista pelo entorno como ativo eleitoral e como forma de apresentá-lo como interlocutor em temas de Estado.
Paralelamente à agenda política, o senador cumpriu um roteiro de forte carga religiosa. No fim de semana, foi batizado no Rio Jordão, em cerimônia acompanhada pela esposa e por um pastor. Para aliados, o gesto reforça a identidade pública de Flávio e a conexão com o eleitorado cristão.
A programação internacional não se encerra em Israel. Flávio siga para o Bahrein, entre 28 de janeiro e 2 de fevereiro, e depois para os Emirados Árabes Unidos, de 3 a 6 de fevereiro. Interlocutores falam em conversas com autoridades e empresários da região, numa tentativa de ampliar o discurso de cooperação econômica e estratégica.
Nos bastidores do PL, o giro é lido como parte de um esforço mais amplo de consolidação interna do nome de Flávio. Ao GLOBO, o senador Rogério Marinho (PL-RN), que assumiu a coordenação da pré-campanha, afirmou esperar que esta seja “a última vez” que Flávio precise sair do país nas circunstâncias políticas atuais, sinalizando que o partido trabalha para estabilizar o cenário e concentrar o senador no tabuleiro doméstico.
— Ele vai viajar o país. São Paulo, Rio, Minas são as maiores escolas eleitorais. Acho que pode se dar um pontapé inicial por aí, mas isso vai ser submetido a ele. Vamos conversar ainda, não tem nada pronto, não tem nada certo ainda.
Apesar da ofensiva externa, Flávio ainda enfrenta resistência entre partidos do centrão e lideranças regionais que não o veem, neste momento, como nome naturalmente unificador do campo conservador. Ao investir em agendas externas e em imagens ao lado de líderes estrangeiros, a estratégia é agregar estatura e reforçar a ideia de que ele poderia ocupar o Planalto com uma agenda internacional própria.