‘Feliz porque não dava mais para viver’: venezuelanos no Brasil comemoram

Abrahar Rodulf, de 30 anos, vive em Boa Vista há 6 anos — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

Migrantes venezuelanos que tiveram que deixar o país natal castigados pela crise econômica relataram “misto de sentimentos” após os ataques militares lançados pelos Estados Unidos contra a Venezuela na madrugada deste sábado (3). Longe do país de origem, eles acompanham as notícias e falam em expectativa de mudança política e medo de novas perdas para quem ficou.


A fronteira do Brasil com a Venezuela está fechada após ataque dos EUA e anúncio da captura de Nicolás Maduro. O Exército brasileiro acompanha a situação e há militares e viaturas posicionadas próximos ao marco onde ficam as bandeiras dos dois países.


Entenda: Os Estados Unidos lançaram um ataque militar de grande escala contra a Venezuela com explosões em Caracas e nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira. A ofensiva resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, segundo anunciou o presidente americano Donald Trump.


Militares do Exército na fronteira do Brasil com a Venezuela, após ataque do EUA no país vizinho — Foto: PM/Divulgação

Militares do Exército na fronteira do Brasil com a Venezuela, após ataque do EUA no país vizinho — Foto: PM/Divulgação

Professor universitário por mais de quatro décadas na Venezuela, José Gregorio Tovar, de 68 anos, vive há um ano e oito meses na capital roraimense, separado da família. Para ele, a ofensiva era algo esperado por parte da população que se sentia sem alternativas.


“Esse ataque era esperado. O povo venezuelano não tinha mais apoio interno. Foram anos de uma ditadura que oprimiu o povo, destruiu a economia, a educação e empurrou milhões para fora do país. Queríamos mudanças”, afirmou.


José Gregorio Tovar, 68 anos, vive no Brasil há 1 ano e 6 meses — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

José Gregorio Tovar, 68 anos, vive no Brasil há 1 ano e 6 meses — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

José Gregorio relata que viu universidades esvaziarem, salários serem reduzidos a valores simbólicos e a educação perder força. Segundo ele, professores chegaram a receber o equivalente a cerca de US$ 130 por mês, enquanto aposentadorias não ultrapassavam alguns centavos de dólar.


“Eu dava aula para quatro mil estudantes. Hoje, a universidade tem menos de 700. A economia encolheu, a educação foi reprimida e a fome virou realidade. Somos mais de 10 milhões de venezuelanos fora do país”, disse.


Mesmo distante, ele mantém contato com familiares que permanecem na Venezuela e afirma que o clima ainda é de tensão.


“Há divisão interna, há medo. Ainda existem grupos armados e reações violentas. O futuro não está resolvido com essa captura. Mas mesmo assim, é um misto de sentimentos”.


Contexto: Roraima é a principal porta de entrada de migrantes venezuelanos no Brasil, pela cidade de Pacaraima. Desde 2015, o estado recebe grande parte das pessoas que fogem da crise política, econômica e social no país comandado por Maduro.


‘Feliz, porque não dava mais para viver assim’

 


Abrahar Rodulf, de 30 anos, vive em Boa Vista há 6 anos — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

Abrahar Rodulf, de 30 anos, vive em Boa Vista há 6 anos — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

O sentimento de alívio também aparece no relato de Abrahar Rodulf, de 30 anos, natural do estado de Sulcre. Em Boa Vista há seis anos, ele sobrevive atualmente recolhendo latinhas.


“Eu me sinto feliz. Feliz porque não dava mais para viver daquele jeito”, afirmou.


Abrahar conta que cresceu em meio à extrema pobreza e que a crise forçou muitas famílias a situações limite.


“Minha mãe se prostituiu para poder nos dar comida. Para sobreviver na Venezuela, a pessoa tinha que roubar ou se humilhar. Quem não fazia isso, não conseguia viver sendo pobre”.


Para ele, a expectativa é de que o país volte a oferecer condições mínimas de dignidade. “A gente espera uma mudança de verdade, que o povo volte a ter comida, casa, trabalho”.


Jesus Martinez, de 65 anos, falou sobre ataque dos EUA à Venezuela — Foto: Kailane Souza/Rede Amazônica

Jesus Martinez, de 65 anos, falou sobre ataque dos EUA à Venezuela — Foto: Kailane Souza/Rede Amazônica

Morando no Brasil há dois anos e meio, Jesus Martinez, de 65 anos, natural de Carúpano, no estado de Sulcre, diz que a reação entre muitos venezuelanos é de alívio, mas também de lembrança das dificuldades que levaram à migração.


“É realmente uma alegria que sentimos, porque se acaba esse regime de Maduro. Nós estamos aqui porque não dava para viver no nosso país, não tinha como comer bem com a família. Como uma pessoa vive com um salário de 1,5 dólar?”, questionou.


Esperança misturada com medo

Lizmar Acagua, 30 anos, trabalha em loja de matéria de construção e vive há 6 meses em Boa Vista — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

Lizmar Acagua, 30 anos, trabalha em loja de matéria de construção e vive há 6 meses em Boa Vista — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

A vendedora Lizmar Acagua, de 30 anos, chegou a Boa Vista há seis meses, vinda de El Tigre, no interior da Venezuela. Ela diz que, apesar da felicidade com a queda do governo, o sentimento não é simples.


“Não é fácil. A gente não queria estar na rua, nem ter que migrar para outro país. Isso machuca. Então a gente recebe [essa notícia] com uma certa felicidade”.


Ainda assim, Lizmar afirma que nunca perdeu a esperança de que algo mudasse. Ela acredita que o futuro pode ser melhor do que os últimos anos vividos sob a crise.


“Eu me sinto feliz, sim, porque chegou a hora. Nunca pensei que isso fosse acontecer, mas sempre tive esperança. Cada vez estava pior. Agora, eu acho que pode ser melhor”.


Explosões em Caracas

Na madrugada, uma série de explosões atingiu Caracas. Segundo a Associated Press, ao menos sete explosões foram ouvidas em um intervalo de cerca de 30 minutos. Moradores relataram tremores, barulho de aeronaves voando em baixa altitude e correria nas ruas. Parte da capital ficou sem energia elétrica, principalmente nas proximidades da base aérea de La Carlota, no sul da cidade.


Vídeos que circulam nas redes sociais mostram colunas de fumaça saindo de instalações militares e aeronaves sobrevoando Caracas.


Após o início dos ataques, o governo venezuelano divulgou um comunicado afirmando que o país estava sob “agressão militar” e decretou estado de emergência. Ainda no texto, a Venezuela disse que convocou todas as forças sociais e políticas a ativar planos de mobilização.


A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, disse não saber onde Maduro está e exigiu uma prova de vida do governo americano.


Militares do Exército na fronteira do Brasil com a Venezuela no dia 3 de janeiro de 2026 — Foto: Nalu Cardoso/g1 RR

Militares do Exército na fronteira do Brasil com a Venezuela no dia 3 de janeiro de 2026 — Foto: Nalu Cardoso/g1 RR

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