A apreensão de celulares em operações recentes reacendeu uma dúvida recorrente fora do meio técnico: como a Polícia Federal consegue acessar dados de aparelhos bloqueados ou até desligados.
Diferentemente das polícias estaduais, que, em geral, conseguem romper apenas bloqueios de tela, a perícia da Polícia Federal é hoje a única no país com capacidade técnica para extrair informações completas mesmo de dispositivos que não estão ligados no momento da apreensão.
A diferença está no nível de sofisticação do procedimento. Um celular desligado representa um obstáculo maior porque não há comunicação ativa nem acesso imediato ao sistema operacional.
Segundo apuração da jornalista Julia Dualib, do G1, essa barreira só é superada após o equipamento ser submetido a protocolos específicos nos laboratórios da PF, conduzidos por peritos especializados em computação forense.
O primeiro passo é impedir qualquer tipo de comunicação externa. Para isso, os aparelhos são colocados em uma estrutura baseada no princípio físico da chamada “gaiola de Faraday”. Trata-se de uma caixa ou bolsa metálica que bloqueia totalmente ondas eletromagnéticas.
O objetivo é evitar que o celular se conecte a redes Wi-Fi, dados móveis ou Bluetooth, o que poderia permitir a exclusão remota de informações por terceiros com acesso às contas vinculadas ao aparelho.
Com o isolamento garantido, o celular é ligado dentro desse ambiente controlado. A partir daí, os peritos utilizam ferramentas próprias para realizar a extração dos dados armazenados na memória do dispositivo.
Segundo a apuração do portal, asse processo não funciona por seleção de conteúdos. A tecnologia empregada copia integralmente o conjunto de informações disponíveis, incluindo mensagens, imagens, vídeos, e-mails, registros de aplicativos e dados antigos, ainda que não tenham relação direta com o foco inicial da investigação.
Somente após essa extração completa é que começa a análise propriamente dita, relatou a jornalista. O material é examinado posteriormente, respeitando os limites definidos por decisões judiciais e pelo escopo do inquérito. Na prática, isso significa que o acesso técnico é amplo, mas o uso das informações é condicionado à autorização legal e à pertinência com a investigação em curso.
Esse grau de acesso explica a sensibilidade em torno das apreensões recentes, especialmente quando envolvem autoridades, empresários ou figuras públicas.
A possibilidade de reconstruir a vida digital inteira de um investigado transforma o celular em uma das principais fontes de prova das investigações contemporâneas e ajuda a entender por que a atuação da perícia da Polícia Federal se tornou um dos pontos centrais das operações de maior impacto em Brasília.