Num raro momento de franqueza sobre a filosofia que orienta as recomendações de vacinas no governo Trump, o presidente do painel federal que indica o calendário de imunização nos Estados Unidos afirmou que vacinas contra pólio e sarampo — e possivelmente contra todas as doenças — deveriam ser opcionais, aplicadas apenas após conversa entre paciente e médico.
O cardiologista pediátrico Kirk Milhoan, que preside o Comitê Consultivo em Práticas de Imunização (ACIP, na sigla em inglês), disse ter “preocupações” de que algumas crianças possam morrer de sarampo ou ficar paralisadas por pólio caso os pais optem por não vaciná-las. Mas emendou: “Também fico triste quando pessoas morrem por doenças relacionadas ao álcool”, acrescentando: “Liberdade de escolha e consequências ruins para a saúde.”
No caso de doenças infecciosas, a decisão individual de recusar uma vacina pode afetar outras pessoas, incluindo bebês que ainda são pequenos demais para serem imunizados e indivíduos imunocomprometidos. Ainda assim, segundo Milhoan, o direito de alguém rejeitar uma vacina se sobrepõe a esses riscos.
“Se não há escolha, o consentimento informado é uma ilusão”, afirmou. “Sem consentimento, é agressão médica.”
As vacinas contra pólio e sarampo são amplamente reconhecidas como grandes marcos da saúde pública, creditadas por evitar incapacidades e milhões de mortes no mundo todo. A vacina contra pólio, em particular, conta com forte apoio de democratas e republicanos, incluindo o presidente Donald Trump e parlamentares do Partido Republicano, que costumam relembrar o período dramático anterior à sua existência.
Mesmo assim, Milhoan defende que tornar essas vacinas opcionais — em vez de obrigatórias para matrícula em escolas públicas em todo o país, como ocorre hoje — ajudaria a recuperar a confiança da população na saúde pública.
Especialistas externos reagiram duramente às declarações, afirmando que a mudança sugerida na política de vacinação levaria à morte desnecessária de crianças.
“Ele não faz ideia do que está falando”, disse Sean O’Leary, presidente do comitê de doenças infecciosas da Academia Americana de Pediatria.
“Essas vacinas protegem crianças e salvam vidas”, reforçou O’Leary. “É muito frustrante para nós, que dedicamos a carreira a melhorar a saúde infantil, ver crianças sendo colocadas em risco por uma agenda ideológica que não tem base na ciência.”
Um porta-voz do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA (HHS, na sigla em inglês) não quis comentar as declarações de Milhoan.
c.2026 The New York Times Company


