O presidente do Paraguai, Santiago Peña, declarou nesta sexta-feira (5) que a espionagem promovida pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) contra autoridades paraguaias “abre velhas feridas” e coloca em xeque os esforços de integração regional no Mercosul.
Em entrevista à Rádio Mitre, da Argentina, o chefe de Estado relembrou a Guerra do Paraguai e afirmou que o episódio fere a confiança construída entre os países ao longo dos anos.
“O Paraguai tem uma história bastante dura na região. Em um momento de nossa história, enfrentamos uma guerra de extermínio, como foi a Guerra da Tríplice Aliança, principalmente liderada pelo Brasil. O Brasil ficou em território paraguaio por quase uma década. São feridas que estamos buscando curar — e esse episódio, lamentavelmente, abre essas velhas feridas”, afirmou Peña.
A declaração ocorre após o portal UOL revelar que a Abin, sob o governo Jair Bolsonaro (PL), executou uma operação hacker para acessar informações sigilosas sobre a negociação da tarifa da usina hidrelétrica de Itaipu. A operação teria continuado no início do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e só foi encerrada em março de 2023, após a atual gestão tomar conhecimento da ação.
Em nota oficial, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil confirmou a existência da operação, mas atribuiu a ação exclusivamente ao governo anterior, ressaltando que a espionagem foi interrompida assim que descoberta.
Negociações de Itaipu suspensas
Peña afirmou que, diante da revelação, seu governo decidiu suspender as negociações com o Brasil sobre a tarifa de Itaipu até que o episódio seja devidamente esclarecido. Ele ainda revelou que o Paraguai cedeu às pressões brasileiras nas tratativas realizadas em 2023 e agora vê com “tremenda preocupação” a descoberta da operação de espionagem.
“Queremos propor uma relação de amizade, de sócios, de amigos, que nos permita construir um Mercosul mais forte. Lamentavelmente, estamos nesse impasse”, disse o presidente paraguaio.
O presidente também afirmou que ataques cibernéticos são comuns vindos de países como a China, e que os Estados Unidos ajudam o Paraguai a se proteger digitalmente. No entanto, ressaltou que jamais esperava esse tipo de ação por parte do Brasil, que classifica como um “país irmão”.
“Há ciberataques que provêm da China. Os Estados Unidos estão ajudando de maneira intensa, mas jamais imaginávamos que estaríamos sendo alvos de espionagem por parte dos brasileiros”, concluiu Peña.