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Linhagem da ômicron não é acusada no exame PCR

Foto: Brandon Bell/AFP

Pesquisadores britânicos identificaram uma linhagem da ômicron que não é acusada no exame PCR, teste de diagnóstico considerado padrão ouro para a infecção pelo coronavírus. Chamada BA.2, a versão do Sars-CoV- 2 foi identificada durante o monitoramento de amostras de DNA originárias da África do Sul, Austrália e Canadá. De acordo com os cientistas, ainda não é possível dizer se a nova versão pode se espalhar com uma velocidade maior do que à da sua “irmã”, mas os sinais são de que elas têm comportamentos distintos.


Para confirmar qual variante causa uma infecção de covid-19, é preciso a análise do genoma completo do vírus, uma informação não fornecida pelos exames de diagnósticos tradicionais. Mas os cientistas descobriram, recentemente, que os testes de PCR podem indicar se uma pessoa foi infectada pela ômicron devido a uma falha genética existente nessa variante do Sars-CoV-2. A linhagem “furtiva”, porém, apresenta muitas mutações presentes na ômicron padrão, mas não contém a alteração genética que permite a identificação pelos testes de PCR.


Essa diferença foi constatada após análise genômica de 709 amostras da ômicron com origem na África do Sul, Austrália e Canadá. A partir da descoberta, a equipe britânica dividiu a linhagem B.1.1.529 em duas: a ômicron padrão (BA.1) e a variante mais recente (BA.2). De acordo com os responsáveis pelo estudo, 42 amostras coletadas (cerca de 6%) eram de BA.2. “Existem duas linhagens dentro da ômicron, BA.1 e BA.2, que são bastante diferenciadas geneticamente (…) As duas podem se comportar de maneira diferente”, afirma, ao jornal britânico The Guardian, Francois Balloux, diretor do University College London Genetics Institute e um dos responsáveis pela análise.


Segundo os cientistas, a linhagem BA.2 é detectada como coronavírus por todos os testes usuais, mas só pode ter sua forma específica determinada por meio de testes genômicos, como a maioria das cepas mais antigas do coronavírus. “No exame de PCR usado no Reino Unido, são apontadas três marcas de DNA. A ômicron original não preenche um desses sinais e, com isso, você já sabe que é ela que está presente. No caso dessa BA.2, nenhuma alteração acontece. Você sabe que é coronavírus, mas não especifica seu tipo”, explica Fabio Mesquita, doutor em biologia evolutiva pela Universidade de São Paulo (USP)


Para o especialista brasileiro, que não participou do estudo, essa nova variante pode atrapalhar o monitoramento do vírus. “É mais complicado fazer o acompanhamento dessa cepa, já que o PCR é o exame mais utilizado para testar as pessoas. Ainda conseguimos identificá-la por meio de testes genéticos, mas eles são bem mais complicados de serem feitos e mais caros”, justifica. Mesquita também acredita que mais detalhes relacionados à transmissibilidade e à agressividade da BA.2 só surgirão com análises mais aprofundadas sobre essa linhagem. “Há essa possibilidade de isso ocorrer, e podemos ter mais uma variante de preocupação, mas ainda não podemos confirmar isso. Somente com testes futuros isso poderá ser decifrado.”


A expectativa do biólogo é de que, nos próximos dias, mais dados relacionados à ômicron original comecem a ser divulgados, o que ajudará no melhor entendimento do cenário atual. “Acho que, nos próximos 20 dias, teremos mais dados concretos e, com isso, vamos saber principalmente sobre a velocidade de transmissão dessa cepa, para decifrar melhor essa expansão”, aposta. “Mas é importante frisar que, enquanto não conhecemos melhor os detalhes, precisamos impulsionar a vacinação, pois só ela pode impedir o surgimento de tantas novas variantes.”


Otimismo

Também à espera de dados mais substanciais sobre a ômicron, o imunologista americano Anthony Fauci, referência mundial em epidemias, voltou a dizer, ontem, que os indícios mostram que a cepa não é pior que as anteriores. Em entrevista à Agência France-Presse (AFP) de notícias, o conselheiro médico da presidência dos Estados Unidos, disse ter “quase certeza que a ômicron não é mais severa que a delta”, mas destacou que está claro que a nova variante é “altamente transmissível”, provavelmente mais do que a delta.


“Existe alguma indicação de que possa ser menos grave, porque, quando se observa os estudos descritivos do que está acontecendo na África do Sul, a proporção entre o número de infectados e o número de hospitalizados parece ser menor do que em relação à delta”, justificou. O especialista enfatizou que é importante não superestimar os dados vistos até o momento. Isso porque, segundo ele, as populações monitoradas são mais jovens e têm menor probabilidade de internação. Fauci lembrou ainda que casos graves levam algum tempo para se desenvolverem, o que deve ser levado em consideração nas análises atuais. “Acredito que serão necessárias algumas semanas, pelo menos, para confirmar a gravidade da variante na África do Sul”, frisou.


Para ele, chegar à conclusão de que se trata de um vírus mais transmissível, mas que não provoca casos graves da doença nem mais mortes e internações seria o “melhor cenário”. “O pior seria aquele em que o vírus não é apenas altamente transmissível, mas também causa uma enfermidade grave e, em seguida, gera outra onda de infecções que não necessariamente consegue ser mitigada pelas vacinas ou pela imunidade adquirida por infecções anteriores”, detalhou Fauci. “Não acredito que acontecerá o pior dos cenários, mas nunca se sabe.”


Mesma opinião foi compartilhada por um alto funcionário da Organização Mundial da Saúde (OMS) também à AFP. “Temos vacinas muito eficientes que provaram seu poder contra as variantes até agora, em termos de gravidade da doença e de hospitalização, e não há nenhuma razão para pensar que não será assim com a ômicron”, explicou o diretor de emergências da OMS, Michael Ryan. Ele lembrou, ainda, que as pesquisas estão em fase preliminar, considerando que o primeiro caso foi reportado no último dia 24. Desde então, cerca de 40 países identificaram a infecção pela ômicron


Fonte: Correio Braziliense


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